S. (2015)

S. (2015)

Antes de qualquer coisa, você precisa saber que S. é um livro diferente de todos que eu (pelo menos) já vi. Tive conhecimento de S., através da indicação de Rodrigo Chaves no MCM 73. Conheço livros interativos, como as obras de Keri Smith, e com propostas diferenciadas, como O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar, mas como S., eu nunca havia visto. E foi isso o que me deixou extremamente curiosa e absolutamente louca para ler a obra, que foi escrita por Doug Dorst e idealizada por J.J Abrams – sim, o diretor de Star Wars: Episodio VII – O Despertar da Força. E por ser completamente diferente de tudo, ou pelo menos da maioria. S., requer uma resenha diferente de todas as outras.

Como ler S.?

Existem várias maneiras de ler S.:

  • Ler O Navio de Teseu como um livro normal e, depois, ler as anotações e os anexos.
  • Ler O Navio de Teseu como um livro normal e, ao final de cada capítulo, ler as anotações e anexos respectivos.
  • Ler O Navio de Teseu e as anotações e anexos ao mesmo tempo.

Eu escolhi a primeira forma, por achar que seria a mais fácil. Não posso dizer se é ou não, já que não experimentei as outras maneiras, mas posso afirmar que não ler as notas é um desafio (tanto por curiosidade quanto porque elas estão na sua cara mesmo), assim como manter todos os anexos no lugar certo (minha dica aqui é colar um post-it em cada um com o número da página em que ele deve ficar. Assim, se algum deles cair, você saberá onde devolvê-lo).

Admito que ler O Navio de Teseu e, depois, voltar para ler as notas e anexos foi cansativo. Mas acredito que a leitura de S. não tenha sido idealizado para ser leve, fluida e fácil.

Sendo assim, acho que ler a obra de V. M. Straka como um livro normal primeiro foi a forma menos confusa de concluir a leitura – já que tanto a trama de O Navio de Teseu, quanto as anotações demandam bastante atenção por si só.

Lendo O Navio de Teseu

Em O Navio de Teseu, acompanhamos a jornada de um homem que não sabe absolutamente nada sobre seu passado, presente e muito menos futuro. Obrigado a atender pelo “nome” de S., ele embarca em um navio tão misterioso quanto sua existência e mergulha em uma perigoso e determinante jornada. A partir dessa breve sinopse, já é possível notar que os enigmas permeiam toda a obra e, como leitor, é impossível não perseguir a verdade por trás da identidade de S.

A leitura não é fácil tampouco fluida, já que “louca” é a palavra que melhor define O Navio de Teseu e suas muitas reviravoltas. Confesso que a obra não é do meu estilo favorito e, se não fosse pela proposta de S., eu provavelmente nunca a leria. Mas isso não me impede de saber que a história é extremamente original, rica e inteligente – até porque, se não fosse tudo isso, certamente não funcionaria dentro do universo particular criado por J.J Abrams.

No prefácio, F.X. Caldeira, responsável pela tradução das obras de V.M. Straka, diz que o autor acreditava que o “foco no Escritor e não na Obra desonra ambos”. E, após chegar ao final de O Navio de Teseu, entendo que o foco no Final e não na Obra também desonra ambos.

Lendo S.

Depois de ler O Navio de Teseu, chegou o momento mais esperado de me entregar às anotações e anexos. E a trama desta história dentro da história é a seguinte: a estudante de leitura Jennifer encontra um exemplar de O Navio de Teseu com as anotações de Eric, um grande admirador da obra de Straka. os dois começam a se corresponder por meio de notas escritas no livro e, logo, estão envolvidos em uma investigação para descobrir quem realmente foi V.M. Straka.

Os diálogos entre Jennifer e Eric são descontraídos e divertidos e, em meio às pesquisas relativas à identidade de Straka/S., os dois passam a dividir confissões pessoais e, ironicamente, começam a buscar a verdade também sobre quem eles mesmos são. Confesso que achei toda a “investigação” pseudointelectual demais e admito que nem sempre é fácil acompanhar o ritmo das anotações – elas são feitas em várias cores de caneta, o que corresponde a épocas diferentes. E com essa narrativa nada linear, é fácil conclusões pontuais, já que a dedução do leitor é altamente testada.

Também é preciso reforçar o capricho com que o livro foi produzido: as anotações nas margens das páginas parecem ter sido escritas de verdade em cada exemplar e os anexos são de um primor impressionante, o que dá ainda mais veracidade à louca história da obra de J.J Abrams e Doug Dorst. Com toques de romance e, ao mesmo tempo, regado a teorias da conspiração, S. merece todo o crédito pela ideia do “metalivro”: a história dentro da historia e a mistura de ficção e realidade dentro da trama.

Ficha Técnica

Nome: S. – O Navio de Teseu

Autores: Doug Dorst e J.J. Abrams

Editora: Intrínseca

Páginas: 472

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Autor

Elaine Assunção

Elaine Assunção

Qualquer que seja a escolha, S proporciona uma experiência única a cada leitor.

  • Estou definitivamente interessado.

    • Elaine Assunção

      Vale muito a pena. Super recomendo.