Mãe! (2017)

Mãe! (2017)

Muitas pessoas tem uma ideia completamente deturpada de como o Cristianismo é e não enxergam como deveria ser na verdade. É claro que a história do mundo suporta isso e faz com que essas visões erradas se proliferem de uma forma tão grande que ofuscam o verdadeiro significado que o próprio Cristo ensinou. Dito isso, sabemos que o diretor Darren Aronofsky é um ex-praticante do judaísmo, hoje ateu.

Eu sou cristão, mas diferentemente de muitas pessoas que professam a mesma fé que eu, gosto ter ver visões diferentes daquilo que eu conheço e acredito, isso não quer dizer que eu comungue ou concorde com essa forma de enxergar a minha crença. Acredito que isso nos gera empatia e um entendimento melhor do mundo em que nós estamos. O filme pode se mostrar extremamente ofensivo para algumas pessoas que não gostam de ver os seus símbolos sagrados vistos de uma forma diferente e criticamente estranha.

O texto abaixo é um híbrido entre as minhas interpretações baseadas na minha experiência com o filme, muitas leituras, podcasts, vlogs, e as de Bruno Guedão, o CEO do Salada Cult, que fez um resumo sólido e de fácil entendimento em sua página do Facebook.

CONTÉM SPOILERS

O diretor já é conhecido por sempre tocar no assunto “religião” e trabalhar com metáforas e mensagens subliminares. Em “Mãe” ele traz uma metáfora entre a criação, evolução e destruição do nosso mundo, usando a Bíblia como base em uma interpretação muito particular.

A casa é o Planeta Terra, o poeta é Deus, a esposa é a Natureza, o homem e a mulher são Adão e Eva, os filhos são Caim e Abel e o bebê é Jesus. (Essa é apenas uma das várias leituras que podem ser feitas porque esses personagens assumem outros papéis em alguns momentos do filme.)

 

O diretor nos mostra um Deus criador, mas que não é onipotente e nem onisciente. Ele é apenas uma força que cria e que se alimenta da interação com essa criação, buscando inspiração pra continuar criando. O primeiro poema (Antigo Testamento) remete a história da criação e as primeiras interações de Deus com a humanidade. A nova obra (Novo Testamento) vem quando ele consegue criar um novo ser em conjunto com a natureza. O filho de Deus.

Assim como em Noé, ele consegue mesclar uma visão evolucionista com uma temática religiosa. Vejam que Deus basicamente cria o mundo (a casa) e o ser que administra a progressão desse lugar: a mãe natureza. Os seres humanos não são criação dele. Tanto que quando “Adão” aparece, ele demonstra desconhecimento. O ser humano é fruto da evolução das espécies, da criação que ele criou. Deus deu apenas o “start”. (Bruno Guedão)

 

O Princípio: O filme começa quando o poeta coloca uma pedra simbolizando o “Haja Luz” que Deus ordena na Bíblia no início de tudo. Nota-se que a casa (Terra) está toda queimada e destruída simbolizando o “sem forma e vazia” (Gênesis 1:3).

Adão e Eva: Conseguimos entender o simbolismo com o casal por vários motivos. Primeiro o homem (Adão) aparece sozinho e começa a ter conversas contínuas com o poeta (Deus) assim como em Gênesis, a Bíblia nos traz que Deus e Adão tinham um relacionamento. Durante a noite o homem passa muito mal e vomita. No momento em que ele está no banheiro o poeta o está ajudando e cobre um ferimento em sua costela nos dando a ideia de Eva, já que ela veio da costela do homem. No dia seguinte a mulher (Eva) aparece.

O Jardim e o Fruto Proibido: Na casa (Planeta Terra) existe um quarto muito importante para o poeta (o Paraíso, Jardim do Éden) onde ele guarda uma pedra que simboliza o fruto proibido, já que ele não deixa ninguém tocar. No momento em que o homem e a mulher entram no quarto sem a supervisão do poeta, eles quebram o fruto simbolizando e entrada do pecado e logo em seguida são expulsos e o quarto é lacrado pelo poeta (em Gênesis 3:4 a Bíblia diz que após Adão e Eva serem expulsos do Jardim, Deus coloca Querubins para guardarem a entrada do Jardim). Em seguida o homem e a mulher fazem sexo e alguns minutos depois os seus filhos aparecem na casa.

Caim e Abel: Podemos entender que os filhos do homem e da mulher são Caim e Abel pelas desavenças um contra o outro, pela morte de um dos irmãos (o primeiro assassinato), também quando o poeta (Deus) se irrita com o acontecido e acerta a cabeça do irmão assassino deixando uma cicatriz (Deus colocou uma marca em Caim, Gênesis 5:15). O pecado e a morte após o assassinato de “Abel” começam a corroer a casa destruindo as estruturas. Uma marca com sangue aparece no chão de madeira onde o assassinato ocorreu trazendo a mente a passagem “a voz do sangue do teu irmão clama a mim…” em Gênesis 4:10  incomodando a esposa (Natureza) por todo o filme.

Dilúvio: A personagem de Jennifer Lawrence pede várias vezes para as pessoas não se sentarem na pia e o pedido é sempre desobedecido até que a pia se quebra e o cano espirra água para todos os lados. A humanidade enche o mundo e devido ao seu comportamento pecaminoso e desobediente, o próprio mundo trata de mandar um dilúvio para expulsá-los. Mais uma vez, Aronofsky nos mostra um Deus passivo. No filme não foi Deus quem enviou o dilúvio. Foi a própria criação. Foi uma resposta do próprio mundo porque os homens estavam utilizando de forma errada aquilo que foi criado.

Jesus Cristo: Nesse momento o diretor traz Jesus como o filho de Deus com a Mãe (Natureza). Ela dá à luz ao bebê em um quarto longe de todas as pessoas loucas do lado de fora e foi aí que a chave virou pra mim. Minutos após o nascimento o poeta sai do quarto e volta com presentes assim como os reis magos que levaram ouro, incenso e mirra para o menino Jesus.

Santa Ceia, comunhão, hóstia, corpo de Cristo: De longe o momento mais pesado do filme é esse. O poeta retira o bebê de sua mãe para mostrar as pessoas que começam a adorá-lo. Nesse momento elas quebram o bebê e em seguida o diretor traz de uma forma completamente visceral e doentia as pessoas comendo os pedaços do corpo da criança, simbolizando um costume Cristão que um memorial que foi instituído pelo próprio Cristo para que nos lembrássemos de sua morte sacrificial.

Religiões, seitas, terrorismo, holocausto, sexismo… Existe um momento no filme quando tudo fica extremamente frenético, mas não vou conseguir colocar todas as referências que aparecem neste momento. Além disso tudo, Darren Aronofsky cutuca a criação das religiões. Mostrando isso como uma evolução humana das ideias ou princípios criados por Deus. A impressão que ele passa é que nenhuma religião tem a ver de fato com a concepção original de Deus e que ele nada faz para consertar isso. Muito pelo contrário, ele gosta disso e de certa forma alimenta.

 

Em momentos chaves, a “Mãe Natureza” sente dores e toma um líquido amarelo para melhorar. Geralmente, isso ocorre quando a casa está sendo invadida e “adulterada” pela humanidade. O pó amarelo remete a um livro de Charles Dickens chamado “Papel de Parede Amarelo” que conta a história de uma mulher que é mantida cativa pelo seu marido e por conta disso entra em depressão. Eu entendo que é disso que o diretor que falar aqui. Uma das principais consequências da depressão é o suicídio. O líquido amarelo mantinha a “Mãe” calma. Ela impedia a sua fúria, a sua depressão e consequentemente, seu suicídio. O que de fato acaba acontecendo no final do filme.

No final das contas, a mensagem que o diretor quer passar é de que NÓS estamos destruindo o nosso planeta e que ninguém vai nos ajudar. Agora, resta entender se ele quer passar uma esperança de que só depende da gente mesmo, ou se de fato estamos fadados a sermos destruídos pela fúria da mãe natureza em seu maior momento de depressão. (Bruno Guedão)

 

O filme tem diversas camadas e eu assisti apenas uma vez. Acredito que deve ser possível notar muito mais coisas vendo uma segunda vez, mas espero ter clareado um pouco as ideias e aberto a sua mente para coisas que podem ter sido confusas durante o filme. Em tempos de filmes de puro entretenimento, rasos e iguais, é bom ter esse respiro de criatividade e injeção de reflexões.

 

 

 

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Autor

Felipe Xavier

Felipe Xavier

gostaria de ver mais projetos audaciosos assim.