A Acusada (2014)

A Acusada (2014)

Em 2001, na Holanda, a enfermeira Lucia de Berk foi acusada, julgada e condenada à prisão perpétua pelo assassinato de bebês e idosos, internados em estado grave, em um hospital em Haia. O caso teve enorme repercussão naquele país, mas pouca (ou nenhuma) publicidade no Brasil. “A Acusada”, da diretora Paula van der Oest, traz esse episódio à tela em um emocionante thriller que deixa o espectador sob suspense permanente quanto à culpa ou inocência da holandesa.

Com um histórico de problemas na infância, Lucia (interpretada pela ótima Ariane Schluter) é uma mulher de personalidade fechada e seu relacionamento com os colegas de trabalho acaba lhe prejudicando profissionalmente. Não precisa muito para que seja logo alçada à condição de principal suspeita pela morte em sequência de seus pacientes. Mesmo condenada, Lucia conta com a ajuda de dois advogados, que recorrem da decisão de prisão perpétua e não abandonam a causa. Os dois defensores têm a ajuda de uma jovem advogada (a linda Sallie Harmsen), e os três unem forças contra a promotoria, que se baseou em estatísticas e no perfil psicológico da enfermeira para condená-la.

A diretora não faz prejulgamentos, nem tenta convencer o espectador a tirar conclusões precipitadas. Ela nos convida a refletir sobre os fatos ao apresentá-los de maneira crua em momentos oportunos da trama. O filme é direto, sem firulas ou grandes reviravoltas e truques similares de longas do gênero. Paula van der Oest utiliza a força de uma história verídica para prender a atenção do espectador com uma atuação vigorosa de Ariane Schluter. As cenas de tribunal são curtas, sem enrolação, e o espectador não tem tempo sequer de olhar o relógio. Pelo contrário: fica a impressão que a diretora poderia aproveitar mais esses momentos e alongar um pouco o filme, que tem apenas 97 minutos de duração.

Ao assistir à “A Acusada”, impossível não lembrar do excelente “A Caça”, longa dinamarquês que foi, talvez, o melhor filme de 2012. O holandês não tem a força, a dramaticidade e a tensão da obra arrebatadora de Thomas Vinterberg, mas segue a mesma linha de suspense até o último minuto, cabendo ao espectador tirar suas próprias conclusões sobre o caso. De quebra, nos faz refletir sobre o circo midiático e os julgamentos antecipados e estereotipados que se fazem em casos do gênero. Imperdível.

Compartilhe:

Autor

Philipe Deschamps

Philipe Deschamps

é jornalista, comentarista de esportes e cinema, e tem uma coluna de cinema no programa Arte Clube da Rádio MEC-RJ.